V24 - Percurso Pedestre da Montanha do Pico

No dia 6 de Agosto, os Amigos dos Açores efectuaram a escalada à montanha do Pico. Ao todo foram 38 membros desta associação, acompanhados por um guia credenciado, que embarcaram nesta aventura, sendo que 35 elementos o fizeram pela primeira vez.
O percurso iniciou-se pelas 6 h e 30 minutos, a cerca de 1200 m de altitude, próximo do Cabeço das Cabras, e terminou no mesmo local, tendo sido atingido o ponto mais alto de Portugal, no Piquinho, a 2351 m de altitude.
O dia estava limpo, o que facilitou a subida. Logo de início, a vista panorâmica sobre a ilha do Faial e sobre o Concelho da Madalena deliciou os olhares de quem ali se encontrava pela primeira vez.
Ordenadamente, os elementos dos Amigos dos Açores caminharam cerca de meia hora, seguindo sempre as instruções do guia, Renato Goulart, que seguia na frente por forma a controlar o ritmo de andamento, até chegarem ao segundo posto – A Furna Abrigo, a uma altitude de 1425 metros.
A Furna Abrigo, situada no Alto do Barreiro em território pertencente à freguesia da Candelária, correspondia, antigamente, a um ponto de paragem quase obrigatório de pernoita, para os mais incautos que se aventuravam na escalada à montanha. Actualmente, uma vez que o acesso de carro até a uma cota de 1200 metros vem facilitar muito a realização deste percurso, é muito raro se registarem pernoitas por parte dos montanhistas, mesmo quando o tempo não se revela muito amigável.
A Furna Abrigo é uma chaminé vulcânica de um hornito, o qual é, de acordo com Nunes (1998), um pequeno cone de lava, sem conduta profunda, formado por “salpicos” de lava, resultantes de pequenas explosões ocorridas à superfície das escoadas.
Após algumas palavras do guia sobre o local e após o disparar de mais uns flashes, deu-se continuidade à subida, não se registando, ainda, por esta altura qualquer tipo de desânimo ou cansaço por parte dos participantes.
Algum tempo depois atingiu-se a cota de 2050 metros, onde se localiza uma cratera fóssil existente no aparelho vulcânico.
Esta cratera, com um diâmetro de aproximado de 800 metros, corresponde a uma segunda cratera poço, mais antiga do que aquela em que se localiza o piquinho, encontrando-se esta materializada por uma nítida ruptura de declive. Terá tido origem a partir do colapso de um vulcão compósito, num evento que correspondeu, segundo França et al (2003), à primeira fase de edificação do vulcão central.
À medida que se foi subindo em altitude, foi-se tornando nitidamente visível a diminuição da altura da vegetação, sendo que a esta cota, e a partir daqui para a frente, observa-se quase exclusivamente rapa (Calluna vulgaris), queiró (Daboecia azorica) e tomilho ou erva-úrsula (Thymus caespititius). Estas últimas, com tonalidades de rosa “choque” e rosa bebé, respectivamente, formam em várias zonas pequenos mantos, que foram sendo, ao longo da subida, alvo das objectivas das máquinas fotográficas dos participantes.
Alguns metros mais acima, quando o cansaço já se fazia sentir em alguns participantes, atingiu-se a cratera de colapso existente na Montanha do Pico, a uma altitude de 2250 m. Nesta cratera de contorno sensivelmente circular, com um diâmetro médio de 550 metros e um desnível máximo de aproximadamente 25 m, foi possível observar, em flor, a subespécie endémica dos Açores bermim (Silene vulgaris ssp. craterícola), que apenas se encontra neste local.
Uma vez que a fome já apertava e a animação dava, nesta altura, lugar a algum cansaço, efectuou-se uma breve paragem para responder a estas necessidades. Assim, e sempre sob um céu limpo que marcava, decisivamente, a presença do Verão, foi-se acompanhando o almoço com uma boa conversa, ora sobre o tempo, ora sob o cansaço, o que é certo é que tema não faltou.
Terminado o almoço, chegou a altura de conquistar aquele que é o ponto mais alto de Portugal, o Piquinho, a 2351 m de altitude. À partida, este cone lávico, muito íngreme, que se eleva a cerca de 125 metros do fundo da cratera, foi suficiente para intimidar alguns, que não se aventuram a subi-lo. No entanto, mais de metade dos 38 elementos dos amigos dos Açores, sempre acompanhados do guia, foram suficientemente corajosos e persistentes para atingir a derradeira meta a que se tinham proposto logo de início.
Deu-se, então, início à subida atingindo-se em pouco tempo a cratera, com cerca de 15 m de diâmetro, existente no topo do Piquinho, onde se localiza um pequeno campo fumarólico. De acordo com França (2002), estas fumarolas existentes no topo da cratera do Piquinho e nas suas vertentes, onde parecem definir um alinhamento geral WNW-ESE, não constituem, neste momento, qualquer ameaça, mesmo para os mais imprudentes, que neste local se aproximem delas, visto se tratarem de emanações essencialmente constituídas por vapor de água.
Do Piquinho, a paisagem que avistada revelou-se verdadeiramente monumental, tendo-se avistado desde a ilha de São Jorge, a nordeste e o Faial a Oeste, à zona central da própria ilha, a sueste, com os seus cones vulcânicos, as manchas de vegetação primitiva, algumas lagoas, nomeadamente a Lagoa do Capitão, etc., até à imensidade do oceano Atlântico. Deste local, e uma vez que o tempo assim o proporcionou, foi, ainda, possível observar, por detrás da ilha de São Jorge a ilha da Graciosa.
Este panorama mereceu e conquistou muitos registos fotográficos, que servirão, para muitos, de comprovação e recordação do alcançar desta meta, que segundo as estatísticas é apenas alcançada por 80% dos que sobem a montanha.
Após uma descida à cratera, onde parte do grupo esperava os mais aventureiros, efectuou-se mais uma paragem, para então, depois de recuperadas as forças, se dar início à descida da montanha.
A descida fez-se a ritmo vagaroso e sempre com muita cautela, já que o trilho algo traiçoeiro acompanhado pelo cansaço de alguns elementos, propiciavam a ocorrência de incidentes.
Volvidas cerca de 10 horas desde o início desta aventura, chegou-se, finalmente, ao fim do percurso. Com muito cansaço, alguns escaldões, joelhos, pernas e pés a doer, mas com o maior dos aprazimentos, finalizou-se, assim, mais um passeio dos Amigos dos Açores.
Não poderia terminar, no entanto, sem fazer menção ao facto de ter sido com grande tristeza e decepção que nos deparámos com uma sinalização desadequada e degradada, pelo que deixo um apelo para que se uniformize a sinalética utilizada neste percurso, substituindo a existente pela que se utiliza nos restantes percursos pedestres recomendados, mas colocando reflectores.
Por: Catarina Furtado cathyfurtado@iol.pt
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