V25 - Life Priolo – 2 anos a plantar mato

Foi em Setembro de 2003 que oficialmente se iniciou o Projecto LIFE “Recuperação do Habitat do Priolo na Zona de Protecção Especial do Pico da Vara/Ribeira do Guilherme”.
Sendo o objectivo final deste projecto a sobrevivência de uma espécie de ave, o Priolo, as acções necessárias a este fim são destinadas não só à espécie em si mas indispensavelmente à recuperação de todo um ecossistema em avançado estado de degradação. Só garantindo a sustentabilidade do ecossistema será possível manter as diversas espécies que o ocupam. Podemos dizer que é esse o verdadeiro objectivo do LIFE Priolo: assegurar o futuro da floresta de Laurissilva que ainda resiste entre os vales e montes da ZPE do Pico da Vara/Ribeira do Guilherme. Apenas sendo bem sucedidos neste objectivo poderemos aumentar as hipóteses de sobrevivência do Priolo.

Trabalhos preparatórios
Um dos principais, e indispensáveis, resultados já obtidos por este projecto foi o alargamento da área da ZPE do Pico da Vara, o qual foi aprovado através da publicação do Decreto Regulamentar Regional 9/2005/A, de 19 de Abril de 2005. Esta acção tinha como objectivo estender a ZPE a praticamente toda a área de distribuição (mundial) do Priolo, abrangendo locais importantes que não estavam classificados originalmente. Esta alteração abre caminho para a reclassificação formal, em termos administrativos e físicos, da ZPE como área protegida num futuro próximo.
Outro dos grandes objectivos era a realização do plano de gestão para a ZPE, o qual já se encontra em fase de orçamentação, e posterior implementação. Esta será uma ferramenta fundamental para a salvaguarda do Priolo e do seu habitat depois do final do projecto Life, em 2008.
Para a realização destas acções procedeu-se a uma recolha massiva de informação sobre a área, a qual permitiu dotar o Life Priolo de um completo sistema de informação geográfica onde facilmente se pode aceder a toda (ou praticamente toda) a informação existente sobre a área e zona adjacente. Este sistema é uma preciosa ajuda para todas as acções de recuperação de habitat e monitorizações, actualmente a decorrerem.

Gestão do Habitat
A conservação do Priolo implica recuperar o seu habitat, aumentando os recursos disponíveis ao longo de todo o ano. Para tal é necessário controlar o avanço das plantas exóticas que ameaçam as manchas de floresta nativa ainda existentes. Plantas como a conteira ou o incenso, têm um comportamento altamente invasor, suplantando as espécies de flora nativa (muitas delas endémicas e igualmente raras) como a ginja, o azevinho ou a uva-da-serra. O controlo destas invasoras implica o uso de ferramentas e herbicidas específicos, bem como de elevados recursos humanos. O acidentado relevo da serra da tronqueira não permite a utilização de máquinas, o que torna este um desafio entre homens e plantas. Durante os meses de primavera e verão do ano de 2005, a equipa do projecto LIFE Priolo atingiu a marca de 35 trabalhadores a tempo inteiro, entre equipa de projecto e trabalhadores sazonais, sendo um dos maiores empregadores a nível local!
Para que as acções de recuperação do habitat sejam possíveis, foi necessário abrir de raiz uma rede de caminhos que se estende por mais de 10km de vegetação densa e declives sinuosos. Estes trabalhos ocuparam grande parte do início de 2005 e permitem actualmente chegar a praticamente toda a área de intervenção proposta no âmbito deste projecto. Após dois anos de árduo trabalho já foi possível afinar os métodos de controlo de plantas exóticas e, não tendo ainda terminado a época de campo de 2005, limpar uma área superior a 41 hectares em pleno coração da serra.
A acção complementar do controlo de exóticas é a plantação de espécies nativas para reforçar as populações naturais e impedir a reocupação do espaço pelas exóticas. Ao longo do projecto foram já plantados mais de 30.000 exemplares de azevinhos, ginjas, cedros, entre outros, que permitiram não só aumentar os recursos alimentares para o Priolo mas também ajudar a estruturar as áreas de floresta entretanto intervencionadas.
Estas plantas são todas produzidas nos viveiros dos Serviços Florestais do Nordeste, localizados na Vila de Nordeste, um dos maiores produtores de plantas endémicas a nível regional.
Um outro objectivo pretendido com este projecto é o aumento da área de pomares na zona de distribuição do Priolo. Os botões florais de laranjeiras foram no passado um importante recurso alimentar durante a época de Inverno. Actualmente este tipo de agricultura foi abandonado quase por completo devido à entrada indiscriminada de inúmeras pragas agrícolas nas primeiras décadas do século XX, inviabilizando assim a sua mais-valia económica para os agricultores. A excepção é a de numa pequena extensão de terreno degradado nas margens da ribeira do Guilherme, submergido por conteira e incenso, que um grupo de irredutíveis trabalhadores do LIFE Priolo transformou, em menos de um ano, num belo pomar com mais de 1000 árvores de fruto rodeado por centenas de plantas endémicas. Desde laranjeiras a limoeiros, passando por macieiras e pereiras, muitas das árvores utilizadas (cedidas pelo Serviços de Desenvolvimento Agrário) são de variedades típicas da ilha e também elas ameaçadas de desaparecimento. Espera-se que este projecto venha a ser encarado como um bom exemplo de reconversão de terrenos e de colaboração entre entidades. No entanto, pelo lado negativo temos a dificuldade em encontrar meios de apoio, para agricultores que queiram implementar este tipo de cultura.

Acções de Sensibilização
A promoção e divulgação do Projecto e das problemáticas envolvidas são fundamentais para atingir as metas a que nos propusemos. Apenas uma população sensibilizada e informada poderá exigir a implementação das medidas necessárias à conservação da floresta nativa e do Priolo.
Neste âmbito foram realizadas diversas palestras para escolas, visitas de estudo à área de intervenção do projecto, a própria formação dos trabalhadores do projecto, notícias nos meios de comunicação social regional e nacional, entre outras actividades.
O momento alto terá sido sem dúvida a visita do Ministro e do Secretário do Ambiente ao projecto, no âmbito das comemorações do Dia Nacional da Conservação da Natureza. Um momento alto para o projecto que muito nos orgulha e que veio premiar o esforço desenvolvido por todos os envolvidos.

Com 2 anos de projecto já decorrido, com vitórias e derrotas, erros pedagógicos e resultados moralizadores, este foi um pequeno balanço do muito trabalho já realizado.
Os trilhos que agora atravessam as terras do Priolo são longos, sinuosos, escorregadios e inclinados, mas cheios de encanto e momentos que nos fazem recuperar as forças. Assim também é o longo caminho que poderá levar à sobrevivência desta ave só nossa, o Priolo.

Por: Joaquim Teodósio - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves Joaquim.Teodósio@spea.pt

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